Três perguntas sobre campanhas políticas impulsionadas por dados

A campanha política é uma característica vibrante das democracias contemporâneas. Embora seja um princípio amplamente aceito que os partidos políticos devem se aproximar e se conectar com os eleitores, o uso crescente de propaganda política direcionada e de campanha orientada por dados gerou novas preocupações e fez com que muitos aspectos da prática atual fossem colocados em dúvida. Existe um consenso crescente quanto à necessidade de uma resposta. Ainda há questões importantes a serem feitas sobre o que está acontecendo precisamente.

Estas perguntas forneceram o pano de fundo para um evento, convocado pela Dra. Kate Dommett e realizado na Academia Britânica sobre “A Ascensão da Campanha Digital: Desafios, Implicações e Resposta”. Acadêmicos, atores da indústria, da política e da sociedade civil foram reunidos para considerar as três questões gerais a seguir.

1. Como os partidos estão usando campanhas políticas baseadas em dados?

Cambridge Analytica Accused Of Collecting Personal Information From Facebook UsersO escândalo Cambridge Analytica parece ter colocado as preocupações com dados em primeiro plano em muitas mentes, mas pouco se sabe sobre o que exatamente está sendo feito com os meios digitais nas campanhas políticas. A Comissão Eleitoral Britânica informou que os ativistas aplicaram 42,8% do total de gastos em publicidade em mídia digital na eleição de 2017. Isso levou a alegações de que a mídia digital, e particularmente a mídia social, era uma influência importante nos resultados eleitorais, mas temos uma compreensão limitada de como o digital foi usado.

No momento, não há dados disponíveis publicamente sobre o dinheiro gasto pelos partidos, qual o conteúdo ou a quem foram dirigidas as campanhas digitais. Talvez mais significativamente, também não há pesquisa sobre se a publicidade digital é eficaz. Embora tenha se tornado um refrão comum que a campanha digital venceu as eleições gerais de 2017, não há praticamente nenhuma evidência de que esse tenha sido o caso.

2. Como a campanha política digital pode ser regulada?

A Comissão Eleitoral e o Comissário de Informação emitiram relatórios sobre as recentes tendências de campanhas digitais. Eles levantam preocupações importantes sobre se os partidos políticos e outras organizações de campanha e empresas estão cumprindo as leis eleitorais e de proteção de dados. Recomendações para maior transparência nas campanhas políticas refletem um crescente consenso de que a regulamentação das campanhas on-line precisa mudar.

No entanto, atualmente não está claro se as mudanças propostas vão longe o suficiente. Os princípios de regulação eleitoral que as instituições estabelecidas defendiam foram desenvolvidos em um contexto político diferente, no qual era mais fácil monitorar o que estava sendo feito e quando as regras estavam sendo violadas. A falta de compreensão sobre o que seja uma campanha digital pode ter importantes efeitos secundários para a regulamentação. Às vezes, simplesmente não é possível que os reguladores, como a Comissão Eleitoral, supervisionem aspectos importantes dessa atividade, mesmo que seu mandato seja ampliado.

Então, quem deve ser responsável pela regulamentação? E qual o papel dos próprios prestadores de serviços digitais? Com o Facebook e o Twitter já fazendo movimentos para aumentar a transparência da propaganda política, e instituições de caridade como o Full Facts oferecendo ferramentas para verificar a informação, quem está melhor colocado para desempenhar um papel regulador e de supervisão? Considerando a acelerada taxa de mudança nas práticas de tecnologia digital, perguntamos se os reguladores estatais tradicionais estão equipados para assumir um papel regulador digital maior, se precisam de mais recursos, ou se outros órgãos também devem arcar com o ônus.

3. O que significa “mensagens direcionadas” para a democracia?

O digital não é o único aspecto da campanha, e muito continua a acontecer off-line, mas as práticas digitais podem violar normas democráticas importantes. A mudança para mensagens direcionadas e a incapacidade de todos os cidadãos verem e julgarem informações em um ambiente de campanha on-line direcionado levantam questões sobre o tipo de democracia que queremos viver.

Embora as ferramentas de campanha digital possam ajudar os partidos a ganhar eleições, elas também têm efeitos colaterais significativos para o modo como a democracia ocorre. Se as sociedades valorizam a igualdade de informação, o debate aberto e a transparência, essas tendências devem ser motivo de preocupação. Mas se a ênfase é, em vez disso, em envolver os eleitores nas questões e idéias que são importantes para eles (campanhas dirigidas em sua forma mais básica), as novas práticas podem ser menos preocupantes. Então, que tipo de engajamento democrático nós valorizamos, e como isso pode ser mais efetivamente confirmado?

Ao pensar sobre as implicações da campanha digital, muitas vezes baseada em dados, é importante não tirar conclusões precipitadas e condenar o que está sendo feito. Embora haja sinais de práticas preocupantes, os profissionais e acadêmicos precisam fazer uma pausa. Devemos nos certificar de que entendemos completamente o que está acontecendo, como é possível responder e quais princípios queremos defender. Sem considerar estas questões, existe o perigo de que qualquer resposta possa ter consequências não intencionais e falhar em avançar os princípios que queremos defender.

A Dra. Kate Dommett ( @KateDommett ) é Diretora do Centro Crick da Universidade de Sheffield e detém o Prêmio Rising Star da Academia Britânica. O Dr. Sam Power ( @SamPower ) é professor de política na Universidade de Exeter e co-organizador do evento da Academia Britânica. Seu relatório, Os desafios de estudar campanhas políticas,
foi publicado em julho de 2019.

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